quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Perseguição às Feiticeiras

Caça às bruxas: A professora Ursel sendo torturada - Maastricht, Holanda, 1570.

Por que mulheres inofensivas – sem chapéu pontudo e com vassoura só para limpar a casa – foram exterminadas na Idade Média? Fanatismo, alucinações e até comida estragada podem explicar a perseguição às feiticeiras.

Entre os séculos 15 e 17, a Europa estava infestada de bruxas. Disfarçadas e infiltradas entre os bons cristãos, elas adoravam o Diabo em segredo, promoviam rituais malignos e lançavam feitiços e maldições com a ajuda do chefe dos demônios. Na calada da noite, roubavam bebês recém-nascidos e os esquartejavam antes de receber o batismo. Depois, ferviam os corpos mutilados num caldeirão para fabricar venenos e poções mágicas. Quando ofendidas, lançavam maldições terríveis: podiam invocar tempestades e chuvas de granizo, matar pessoas com um simples olhar e transformar suas vítimas em sapos, ratos ou cobras. Nas noites de sexta-feira, as adoradoras de Satanás montavam em vassouras ou cadeiras enfeitiçadas e voavam para o sabá – na superstição medieval, uma espécie de missa satânica realizada em florestas ou montanhas desertas. Nessa noitada diabólica, as bruxas se entregavam a uma maratona de pecados e blasfêmias. Empanturravam-se em banquetes canibalescos, cujo cardápio incluía corações de crianças e carne de homens enforcados. Engatavam orgias onde todas as perversões sexuais imagináveis eram permitidas e encorajadas. Às vezes, o coisa-ruim em pessoa entrava na farra, dançando e amando suas servas na forma de bode preto, gato gigante ou homem-monstro, com 7 chifres na cabeça e um enorme pênis ereto, todo coberto de espinhos.

Os delirantes relatos vêm de livros como Martelo das Feiticeiras (1487) e o Quadro da Inconstância dos Anjos Malvados e Demônios (1612), manuais usados para caçar, prender e exterminar as “agentes de Satã”. Durante séculos, esses livros foram levados a sério – e a crença nas bruxas não era vista como superstição, mas artigo de fé. “Acreditar em bruxas é uma parte essencial da doutrina cristã. Duvidar de sua existência é uma grave heresia contra a Santa Igreja”, afirmavam o monge alemão Heinrich Kraemer e o padre suíço James Sprenger, autores de Martelo das Feiticeiras.

Na época de Kraemer e Sprenger, a crença na bruxaria era tão forte que desencadeou uma das perseguições mais brutais que o Ocidente já viu. A caça às bruxas, que atingiu o ápice entre os séculos 15 e 17, foi um capítulo sinistro na transição do mundo medieval para o período moderno. Durante cerca de 400 anos, os governos laicos e as autoridades religiosas da Europa prenderam, torturaram e assassinaram uma multidão de pessoas pelo crime de feitiçaria. Como os registros oficiais da época são muitos confusos, o número exato de vítimas é até hoje um mistério. Alguns historiadores sugerem um total de 200 mil mortos, enquanto outros falam até em 9 milhões. Quase todos eram mulheres, em geral camponesas miseráveis, que viviam sozinhas em pequenos casebres às margens das aldeias. Para sobreviver, elas atuavam como curandeiras, fazendo feitiços, simpatias e remédios naturais. Esse verniz de simplicidade e sofrimento torna ainda mais intrigante o mistério que nenhuma das teorias consegue explicar direito: afinal, por que raios as pessoas começaram a ver naquelas tiazinhas inofensivas bruxas voando em vassouras e dançando peladonas com o Diabo? Para entender isso, precisamos voltar ao início da civilização ocidental e responder a uma outra pergunta:

O que é uma bruxa?

Segundo o Martelo das Feiticeiras e outros manuais da época, bruxa (ou bruxo) era alguém que praticava magia para fins malignos, com a ajuda do demônio. O conceito de bruxaria surgiu na Idade Média, mas outras formas de magia eram praticadas desde a Antiguidade – e nem sempre eram vistas como algo mau. No mundo greco-romano, a palavra mageia designava uma espécie de religião não oficial baseada no culto de deuses ligados à noite e à escuridão. Segundo a crença da época, divindades como Plutão, deus dos mortos, e Hécate, deusa das encruzilhadas e da lua nova, podiam tanto causar doenças quanto curá-las. “As leis romanas condenavam a magia com fins maléficos, pois a enfermidade e a morte freqüentemente eram atribuídas a causas mágicas. Mas a magia com fins benéficos na Grécia e em Roma era considerada lícita e mesmo necessária”, diz o historiador Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, da USP, em seu livro Bruxaria e História.

A tolerância virou pó no início da Idade Média. Com a Europa convertida ao cristianismo, os ritos mágicos caíram no enorme balaio de crenças proibidas. Só esqueceram de combinar com o povão, que durante todo o período medieval continuou invocando espíritos, amaldiçoando inimigos e enfeitiçando amantes à revelia dos padres. Com uma diferença: se nos tempos antigos havia magos e magas na mesma proporção, na Europa cristã a bruxaria era monopólio feminino. Não é difícil entender por quê: enxotadas do comando da Igreja (desde o século 2, o sacerdócio cristão era exclusividade dos homens), as mulheres fizeram das práticas mágicas proibidas sua solitária esfera de poder. Entre as figuras mais respeitadas nas aldeias e nos campos – onde viviam 95% da população européia no século 15 – estavam as curandeiras, chamadas de “mulheres sábias” na Inglaterra, França, Alemanha e outros países. “Eram geralmente viúvas ou solteironas, com enorme conhecimento de ervas medicinais. Embora fossem pessoas miseráveis, tinham grande prestígio. Num mundo quase sem médicos, elas serviam como faz-tudo: parteiras, adivinhas, terapeutas”, diz o historiador Henrique Carneiro, da USP.

Passados de mãe para filha ou de tia para sobrinha, os segredos das curandeiras escapavam à compreensão da ciência. De fato, alguns de seus remedinhos eram pra lá de estranhos. Ovos fervidos em urina, por exemplo, eram usados contra picadas de insetos. Pomadas de sêmen de cavalo serviam para provocar a gravidez. Amuletos para atrair o amor, afastar mau-olhado e detectar venenos usavam como ingredientes ratos assados, pele de cobra e dentes humanos, recolhidos no cemitério mais próximo. Bênçãos e rezas também estavam no repertório. Em meio à bizarrice, nem tudo era chute ou superstição. A “magia” dessas mulheres abarcava conhecimentos que depois seriam cientificamente comprovados (veja alguns exemplos no quadro ao lado).

O que nem as curandeiras nem os cientistas podiam prever eram as desgraças que arrasariam a Europa no século 14. Em 1315, catástrofes climáticas destruíram colheitas em toda a Europa, exterminando 20% da população e originando surtos de canibalismo. Décadas depois veio a peste negra – a gigantesca epidemia que varreu um terço dos habitantes da Europa, cerca de 20 milhões de pessoas. Numa época coalhada de superstições, era preciso culpar alguém pelas calamidades. Sobrou para as curandeiras. “Durante as crises, os pobres do campo passaram a descontar sua frustração pelas colheitas ruins ou pela alta taxa de mortalidade infantil sobre aquelas que tinham menos capacidade de reagir – as solteironas e as viúvas, sem maridos ou filhos para protegê-las”, afirma a historiadora americana Anne Lewellyn Barstow, no livro Chacina de Feiticeiras. A fagulha virou incêndio com a radicalização religiosa da Inquisição, movimento cristão de perseguição aos hereges. A caça às bruxas, até então esporádica, foi oficializada em 1484, quando o papa Inocêncio 8o publicou uma bula transformando em hereges todos aqueles que “realizam encantamentos, sortilégios, conjurações de espíritos e outras abominações do gênero”. A sabedoria popular sem respaldo da Igreja passou a ser coisa do Diabo.

Tá todo mundo louco

Embalados pelo frenesi da Inquisição, muitos países incluíram a bruxaria na lista de crimes contra o Estado. A caça às bruxas intensificou-se e fez vítimas como a alemã Walpurga Hausmanin, uma viúva idosa que ganhava a vida como curandeira no vilarejo de Dillingen, no sul do país. Em 1587, seus antigos clientes e amigos a acusaram de matar bebês e dizimar os animais da aldeia (uma simples fofoca mandava pessoas ao calabouço). Walpurga foi presa e levada ao tribunal. Isolada do mundo exterior, não tinha direito a nenhum tipo de defesa. Os juízes examinavam o corpo das vítimas em busca de “marcas do Diabo” – verrugas, sinais de nascença ou simples cicatrizes. Acorrentada e espancada, Walpurga confessou: seus poderes eram dádivas de Satanás. Marcada com ferro em brasa, foi queimada viva em praça pública. Por mais de 200 anos, houve muitas Walpurgas. Pessoas de todas as idades juravam ter visto sabás e muitos admitiam ter participado das orgias. O fanatismo religioso fazia a maioria da população acreditar que o Diabo estava à solta.

Será possível entender racionalmente essa maluquice? Há algumas explicações, nenhuma delas plenamente satisfatória. A mais tradicional vem da psicologia, que classifica a perseguição às bruxas como um período de histeria coletiva, doença caracterizada pela falta de controle sobre atos e emoções. Parece algo muito esquisito? Sim, mas pode rolar até nas sociedades mais liberais. Alguns estudiosos defendem que foi justamente isso o que aconteceu nos EUA da década de 1950, época da paranóia anticomunista – não por acaso, também chamada de “caça às bruxas”. “O medo dos comunistas era tão grande que qualquer intelectual virava suspeito de espionar para a União Soviética”, diz o historiador inglês Nigel Cawthorne em seu livro Witch Hunt (“Caça às Bruxas”, sem tradução no Brasil).

Mas o pânico social não justifica totalmente as descrições detalhadas de vôos noturnos, lobisomens e bailes satânicos. A loucura em massa talvez possa ser explicada pela própria massa – não a humana, mas a do pão. Parece louco, mas é simples: entre os séculos 15 e 17, o principal alimento da dieta européia era o pão feito à base de centeio. Em climas chuvosos e úmidos, como em boa parte da Europa, era comum que os depósitos de centeio fossem atacados por um fungo conhecido como Claviceps purpurea. O Claviceps é um velho conhecido dos viajandões: ele contém um alcalóide chamado ergotamina, que em 1943 foi usado em laboratórios americanos para produzir o LSD. Se essa explicação for correta, dá para concluir que grande parte das pessoas envolvidas no massacre às bruxas poderia estar literalmente delirando, em estado de transe, falando sozinha ou descrevendo visões psicodélicas. Ver assombrações demoníacas e outras cenas seria compatível com esse quadro alucinado de alteração química.

Fogo na corte


A viagem do mal só deu sinais de esgotamento no final do século 16, quando pipocaram as primeiras denúncias de psiquiatras e até jesuítas da loucura coletiva. Mas a caça às bruxas fez vítimas até a metade do século 18. Com as curandeiras exterminadas, a atenção dos caçadores se voltou a qualquer mulher suspeita. A gota d’água veio em 1682, quando a marquesa de Montespan, amante do rei francês Luís 14, foi acusada de satanismo. Sentindo o calor da fogueira muito próximo ao trono, Luís 14 baixou um decreto proibindo a perseguição a bruxas na França. No século seguinte, o rei francês foi imitado por outros governantes. Mas a última execução por bruxaria só aconteceria em 1782 – apenas 7 anos antes da Revolução Francesa, que inaugurou oficialmente a modernidade no Ocidente. Mesmo com suas chamas extintas, a chacina das feiticeiras continua sendo um dos enigmas mais arrepiantes da história.


Texto de José Francisco Botelho 
Superinteressante

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os Poderes da Noite

Lucien de Samosate - "Histoire Veritable".

Desde o despertar da humanidade que o homem vem praticando o culto do sangue para se comunicar com os espíritos secretos da natureza, para adivinhar o enigma do universo e pôr fim à angustiante pergunta: «como vencer a morte? ».

Conta-se que Horácio fez comparecer duas mulheres mágicas para que se invocassem as divindades e se compreendessem as coisas do porvir: «Primeiro dilaceram com os dentes uma pequena ovelha cujo sangue foi preparado numa cova para que viessem ali as almas dos mortos. Em seguida colocaram, perto, duas estátuas, uma de cera, outra de lã. A de cera era mais pequena e subordinada da outra. Esta a seus pés, como que suplicante, apenas esperava a morte. Ao fim de diversas cerimônias mágicas, a imagem de cera foi derretida e consumida».

O sangue permitia atrair os espíritos e dar-lhes um rosto, uma forma.

Lucien de Samosate descreve os vampiros na sua "Histoire Veritable". Dá-lhes o nome de Onoscéles, e afirma que estes seres se alimentam, não apenas do esperma, mas também da carne e do sangue de estranhos, atraídos pelas suas carícias. A flor do alho não tem qualquer poder contra os vampiros, contrariamente ao que acontece com a raiz de malva que os obriga a, fugir, confessando os crimes que cometeram.

«À noite», escreve ele, «chegamos a uma ilha pouco importante, toda habitada por mulheres (pelo menos assim o pareciam) falando a língua grega. Aproximam-se, estendem-nos as mãos e beijam-nos. Adornadas como se fossem cortesãs, todas novas e bonitas, vestidas com túnicas até aos calcanhares. O nome da ilha é Cabalusse, e a aldeia é Hydamardie. Cada uma destas mulheres, como que tomando conta de nós, conduziu-nos a sua casa e deu-nos hospitalidade. Por minha parte, um mau pressentimento tornava-me hesitante. Com um olhar atento, descobri ossadas e caveiras de um grande número de homens. Apetecia-me gritar, pedir ajuda aos meus companheiros, dispormo-nos à guerra preferindo afinal nada fazer.

Agarrei unicamente a raiz de malva que trazia comigo, suplicando que me livrasse dos perigos que me ameaçavam. Um instante passado, e enquanto ela se ocupava em me servir, noto que as suas pernas não são iguais às de outras mulheres, pois tem patas de burro. Desembainhei a espada e, agarrando-a, acorrentei-a e obriguei-a a que tudo me confessasse. Resistiu, mas acabou por me dizer que eram mulheres marinhas chamadas Onoscéles, e que devoram todos os estranhos que ali abordam. ‘Nós embriagamo-los (explica ela) para que se deitem conosco e enquanto dormem, então, degolamo-los’. » Ouvindo estas palavras, deixo-a ainda acorrentada e subo ao telhado onde, com todas as minhas forças, chamo os meus companheiros. Quando chegaram, contei-lhes tudo e mostrei as ossadas conduzindo-os junto da minha prisioneira; eis que, transformada em água, desaparece. Mergulho a espada ao acaso nessa água que se transformou em sangue».

O sangue torna-se o elixir da vida, o mesmo princípio de vida e de morte. Nada escapa à sua lei. Ele, só por si, contém as origens do homem e do mistério da sua morte. «Os demônios impuros», escreve Hallywell, «em Mélampronéa (1681) sentem prazer em sugar o sangue quente dos homens e dos animais. As feiticeiras oferecem a Satanás uma parte do sangue delas no momento da assinatura do pacto...» Magia noturna, juramento de amor, combate, vitória... nada escapa à lei do sangue. É ele que permite selarem-se contrato, invalidá-los, matar, comunicar com os mortos.

»Salve, Pai dos deuses! Clamam os padres da morte no antigo Egito. Salve vós os sete Hacthor com os cornos sangrentos a ornamentar-vos! Salve senhores do céu e da terra! Vinde a mim, e que o casal seja um só, uno no mesmo túmulo, forte e incorruptível, ligado pelo sangue e água, pelo terror e pela beleza que descerão vivos a este lugar. Se vós não chegardes a uni-los, eles que estão prontos a receber o vosso raio, eu Nasha, incendiarei Bousiris e queimarei Osíris. »

Os sacerdotes do culto dos mortos não temem lançar um desafio aos deuses supremos, blasfemar para forçar os espíritos do além a manifestarem-se, a tomar sobre si o defunto para a sua longa viagem noturna.

Toda a história mágica dos homens relata a história misteriosa do sangue, o seu poder sobre o destino do homem. O homem transporta a obsessão do sangue através das raças e das civilizações. Podem os homens morrer, desaparecer os impérios, que a humanidade – a mais que velha humanidade – não esquece a presença atemorizante do sangue, a sua presença oculta no interior do corpo, o seu mistério. Cada molécula parece dissimular uma terrível verdade: o próprio segredo do homem e do universo.

Neste túmulo vivo
depositei meu sangue

É desta forma que os adeptos do vampirismo acreditam no supremo poder do sangue. Afirmam que este atravessa o túmulo acordando o duplo, que escapa à decomposição. E o túmulo torna-se a prova alquímica onde a matéria negra trava o seu último combate, em que ela se transforma em Maelström de energias vivas, refazendo vida a partir das cinzas.

O vampirismo cultivou sempre a inversão e negação dos valores espirituais do Evangelho.

Logo que Jesus morreu na cruz, a lança do centurião trespassou o lado e imediatamente saiu sangue que derramou o espírito de Deus. É nesta fonte de vida que os cristãos virão beber, para que possam ter o direito à ressurreição da carne e à imortalidade. Através do corpo imolado do Cristo, Deus expande-se e integra-se no mundo.

«Se alguém tem sede, venha a mim! Beba quem crê em mim» declarou Jesus no Templo, em Jerusalém.

A Escritura anuncia: Do seu seio, correrão fontes de vida. É do lado aberto de Cristo que procede o Espírito e se derrama sobre os homens. No momento da Eucaristia, o sacerdote lembra as palavras de Cristo: «Tomou o cálice e dando graças o abençoou e deu aos seus discípulos dizendo: Tomai e bebei todos, este é o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos os homens em remissão dos pecados». Assim o sangue de Cristo renova a aliança com Deus, propaga o Espírito e destrói a morte.

A partir dos santos mistérios, os adeptos do vampirismo construíram a sua crença quanto à incorruptibilidade do corpo, do sangue que renova a vida e impede a morte, sem nada purificar, conservando as máculas e os miasmas psíquicos, os instintos da morte, o medo e o ódio... prendendo-se ainda ao mundo dos sentidos e do prazer.

A obsessão do vampirismo é o medo da morte e a necessidade do mundo (apesar do túmulo), e recusar morrer e abandonar o corpo. Todas as patologias estão ligadas para criar assim o monstro noturno, bebedor de sangue, em rebelião contra a luz.

Na mitologia do vampiro sabe-se que o morto-vivo teme a luz do dia porque ela poderá destruí-lo, reduzindo-o a cinzas.

Compreende-se assim porque se diz – no culto do vampiro – que a cruz de Cristo o faz recuar e evita a sua saída do túmulo, pois ela simboliza a luz de Cristo, vencedor da morte destruidora de cada parcela ou átomo de obscuridade que transfigura e ressuscita o mundo e cujo sangue derramado liberta o Espírito. O crucifixo não é um elemento folclórico para filmes de vampiros. É a transfiguração face às forças vegetativas da morte.


Fonte: Os Vampiros - Jean-Paul Bourre - Publicações Europa-América (1986)

O Êxtase Negro


É nesta atmosfera de caça aos vampiros que a igreja se deparou com a mais terrífica blasfêmia: a maldição do sangue, sangue este de que o Antigo Testamento nos fala como portador do Espírito...! E, pois, pecado mortal por excelência: Um crime contra o Espírito!

E, no entanto, nas histórias de vampiros, a morte aceita este estado de vida intermédio, esse sono do morto-vivo encerrado no seu caixão, tendo o poder de vagabundear durante a noite como ave noturna que descreve círculos concêntricos ao se aproximar da sua presa.

E de noite que o duplo astral do vampiro se transforma em lobo, fogo-fátuo, morcego. Está ligado aos vivos por forças subterrâneas, ligações secretas que vêm se prender como anzóis ao sono de futuras vítimas. Na versão de Bram Stoker – autor do Drácula – a hora do vampiro situa-se entre a meia-noite e a uma hora da manhã, mas as invocações do morto-vivo fazem-se ao pôr do Sol.

O sono não protege. A consciência de quem dorme fica anestesiada, a vontade entra em letargia e qualquer espírito malfeitor pode vir ocupar o seu espírito deixando-lhe ficar uma imagem, um pesadelo que manterá ao despertar sob a forma de uma obsessão.

Pela manhã, a vítima do vampiro se lembra de ter tido um sonho estranho que lhe deixa um profundo cansaço, um estado de extrema debilidade. Ela experimentou aquilo a que os exorcistas do século XVIII chamam: a VIOLAÇAO DA ALMA.

Sintomas de uma manifestação oculta que escapa ao túmulo, ou desequilíbrios psicopatológicos?

Cada um explicará o fenômeno à sua maneira, agarrando-se às suas crenças e terrores, mas isso não modificará em nada a natureza dos sintomas. São de tal forma características que um padre exorcista ou os velhos aldeões que «sabem», conseguem detectar a passagem de um vampiro.

O estudo dos processos verbais e das aparições de vampiros nos séculos XVIII e XIX – sobretudo na Europa central – permite-nos abrir o dossiê médico-psíquico do homem e da mulher tornados vampiros.

Uma mulher ainda nova que recebeu a visita noturna de um vampiro, acorda pela manhã lembrando-se de um pesadelo vago, impreciso, mas aterrorizante. Desde logo, com as visitas noturnas o seu comportamento vai-se sucessivamente modificando. A fraqueza e a prostração parecem ser os primeiros sintomas. Seguidamente estará sujeita a perdas de consciência, novos pesadelos cada noite um tanto mais precisos, êxtases negros onde os ritmos deslizam com a lentidão de um veneno. Porque é bem de um veneno que se trata. A vítima – que não entrou ainda na «cadeia» dos adeptos – vive num estado permanente de sonambulismo e súbitas entradas em transe, que surpreende e horroriza quantos a rodeiam dada a modificação repentina.

Acorda de manhã, umas vezes com dores de cabeça, com enxaquecas sem aparente razão de ser, com a sensação de pesadelos de que se não lembra e a ideia vaga de ter dormido com um peso sobre o peito, uma impressão de asfixia durante o sono.

Outras vezes tem um acordar diferente. Olhos abertos e vítreos, ela persegue ainda o pesadelo noturno, de olhar vago.

Este torpor não durará além de alguns instantes, mas o dia decorrerá entre dois mundos, com ausências, com incompreensíveis sonolências e, por vezes, comas com a duração de dois ou três minutos.

A doença se desenvolverá rapidamente até à morte. Trágico começo no decorrer do qual a vítima se torna «adepta» e cairá no abismo. Ela já não poderá abandonar a cama, e a palidez é tal que nem a febre diminuirá. Deixa de conhecer os membros da família. O sono é cada vez mais frequente e mais profundo, dando-lhe cada vez mais as fácies da morte. O pulso fraco, os olhos parados. Interrogam-se entre si os especialistas. Um deles crê tratar-se de uma «histeria cataléptica».

Raymond Rudorff – que explorou os «arquivos do Drácula» – descreve maravilhosamente um dos transes vividos pela vítima do vampiro:

«Depois de ter interpretado as mais encantadoras melodias, Adelaide atacou temas mais violentos. Um brusco entusiasmo se apoderou dela; os olhos começaram com um brilhar sobrenatural; empalideceu, vacilou, mas recuperou, e de novo, batendo as teclas com vigor redobrado, lançou-se numa série de áreas ainda mais violentas que as primeiras.

»Estranhas visões desfilaram diante dos meus olhos enquanto ela tocava energicamente acordes vibrantes: tempestades em plena montanha, o roncar de mar revolto, assembleias noturnas de bruxos, noite de Walpurgis sobre qualquer cume descampado...

»Adelaide tornou-se cada vez mais pálida, a música cada vez mais violenta até que, largando um grito, Conrad se levanta num salto dizendo:

»– Basta! Por amor de Deus!

»Tremendo dos pés à cabeça, Conrad aproximou-se do piano enquanto Adelaide se levantava olhando-o com ódio.

»– Adelaide – insistiu ele –, suplico-lhe, não toque mais nada! Você está a fazer mal a si própria!

»A transformação que se operou nela foi espetacular. A doce e amável rapariga já não existia. Em seu lugar, erguia-se diante de nós uma cara lívida em fúria, transtornada por uma cólera intensa e, de voz ríspida e fria (que me gelou o coração), vociferou: «Não obedeço senão ao meu senhor! » Sacudida por terrível tremura, deu alguns passos e caiu redonda aos pés de Conrad. »

Todas as manifestações de vampirismo pertencem a estas atmosferas. Nada sustém esta fascinação pelo abismo, este culto do terror!


Fonte: Os Vampiros - Jean-Paul Bourre - Publicações Europa-América (1986)