quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma cura milagrosa

Padre Ralph Di Orio
Leo Perras pode andar hoje em dia, muito embora tenha sido aleijado, sem esperanças de cura, durante anos. A história desse verdadeiro milagre começa com um moderno milagreiro chamado padre Ralph Di Orio, que ainda continua em plena atividade.

Padre Di Orio nasceu em Providence, Rhode Island, em 1930, e foi ordenado pela Igreja Católica Apostólica Romana em 1957. Estudioso de idiomas e educador, Di Orio mostrava-se bastante convencional na prática de seus pontos de vista teológicos, até 1972. Foi neste ano que sua congregação, de língua predominantemente espanhola, decidiu tornar-se carismática, forma de adoração que enfatiza expressões religiosas pessoais e experiências espontâneas.

Padre Di Orio resistiu às mudanças e somente com a aprovação do bispo de sua diocese é que modificou os serviços. Finalmente, envolvendo-se com a nova ordem de coisas, o padre de meia-idade começou a prática da imposição das mãos durante os serviços sacerdotais, e, em breve, descobriu que possuía o poder de curar. Realizava trabalhos de cura na Igreja de St. John em Worcester, Massachusetts, quando conheceu Leo Perras.

O aleijado, originário da comunidade de Easthampton, sofrera acidente de trabalho algum tempo antes, quando contava apenas 18 anos, que o deixara paraplégico. As cirurgias não deram certo, e ele ficou paralisado da cintura para baixo, precisando deslocar-se em uma cadeira de rodas. Naturalmente, houve o definhamento das pernas, causando-lhe fortes dores. Já estava tomando diariamente medicamentos contra essas dores insuportáveis, quando foi procurar o padre da Nova Inglaterra.

Ao conhecer padre Di Orio, Perras já estava confinado na cadeira de rodas fazia mais de vinte anos. O padre fez orações para o visitante durante os serviços religiosos, e os resultados foram praticamente imediatos. O paralítico levantou-se e caminhou para fora da igreja. Os músculos das pernas aparentemente ficaram fortes, e as dores que ele sentia havia muito desapareceram.

A história parece boa demais para ser verdadeira, porém está particularmente bem documentada. O próprio médico de Perras, Mitchell Tenerowicz, diretor do Cooley Dickinson Hospital, em Northampton, examinou o paciente logo após a cura milagrosa e notou que suas pernas ainda estavam atrofiadas, o que significava ser fisicamente impossível àquele homem andar. Mas ele andou. As pernas de Perras foram ficando mais fortes durante as semanas que se seguiram e, no dia 29 de setembro de 1980, o programa Isso É Incrível, da rede NBC de televisão, entrevistou-o e transmitiu sua história de norte a sul dos Estados Unidos.

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Fonte: O Livro Dos Fenômenos Estranhos - Charles Berlitz

domingo, 20 de janeiro de 2013

A maldição do Diamante Hope

Encontra-se em Washington-DC, no Smithsonian Institute, o diamante Hope, uma jóia de valor incalculável. Os seus reflexos azuis cintilam em um núcleo frio como gelo. Parece inofensivo, no entanto, a essa beleza impassível desta gema fria e brilhante, com inúmeros antecedentes de sangue e paixão, já foram atribuídas mais de 20 mortes.

Durante três séculos, reis e pobres, ladrões e cortesãos, contemplaram a sua opulência - e enlouqueceram. Segundo a lenda, a primeira das suas vítimas foi um sacerdote hindu que sucumbiu ao seu sortilégio há 500 anos, pouco depois de essa gema ter sido extraída de uma mina no rio Kistna, no sudoeste da Índia. O sacerdote roubou-a da testa de um ídolo num templo indiano, mas foi apanhado e torturado até a morte.

O diamante apareceu na Europa em 1642, nas mãos de um contrabandista francês de nome Jean Baptiste Tafernier, que com a sua venda obteve dinheiro suficiente para adquirir um título e uma propriedade. O seu filho, entretanto, endividou-se tanto no jogo que o negociante foi obrigado a vender tudo o que conseguira. Arruinado, Tafernier regressou a Índia para refazer a fortuna, onde encontrou uma morte trágica - foi despedaçado por uma matilha de cães selvagens.

A gema reapareceu na posse do rei francês Luís XIV, que a mandou lapidar, o que transformou os seus 112,5 quilates originais em 67,5 quilates. Nicolas Fouquet, um membro do governo que a pediu emprestada para um baile da corte, foi condenado à prisão perpétua em 1665 por desvio de fundos do Estado.

O próprio Luís XIV, o Rei-Sol, morreu arruinado e  detestado, enquanto uma série de catástrofes militares destroçava o seu brilhante império. Ignorando a maldição que pesava sobre a jóia, mais três membros da família real que a usaram ou possuíram viriam a morrer em condições trágicas.

A princesa de Lamballe, que a usava regularmente, foi espancadas até a morte pela multidão. O rei Luís XVI e sua mulher, a rainha Maria Antonieta, que a herdaram, morreram na guilhotina. Depois, em 1792, em pleno tumulto da Revolução Francesa, o diamante desapareceu de novo, durante quase 40 anos - intervalo que permitiu a proliferação das lendas sobre a jóia.

Conta-se que um joalheiro francês, Jaques Celot, obcecado pela sua beleza, enlouqueceu e suicidou-se. Um príncipe russo, Ivan Kanitovski, ofereceu-o a sua amante parisiense - que depois a matou a tiros, sendo ele próprio mais tarde assassinado. Há mesmo quem assegure que a imperatriz Catarina, a Grande, da Rússia, usou a pedra antes de ser atingida por uma apoplexia que a vitimou.

O diamante foi redescoberto depois de um lapidador de diamantes holandês o ter reduzido ao seu peso atual de 44,5 quilates. O filho do lapidador, porém, roubou-lhe a jóia, e este se suicidou.

A jóia percorreu a Europa, deixando atrás de si um rastro de sangue, até chegar às mãos de Henry Thomas Hope, banqueiro irlandês possuidor de uma grande fortuna, que a comprou por 30.000 libras apenas e lhe deu o seu nome atual. O seu neto acabou, mais tarde, por morrer na miséria.

Em 1908 o sultão turco Abdul Hamid comprou o diamante por 400.000 dólares e ofereceu-o a sua mulher, Subaya, e depois a apunhalou. No ano seguinte perdeu o trono.

Mulher do Sultão Abdul Hami. Foto Divulgação

Em 1911 a jóia fatídica, já na America, foi adquirida pelo magnata do mundo dos negócios Ned McLean pela quantia de 154.000 dólares. Nos 40 anos seguintes, o seu filho Vincent foi atropelado por um automóvel; McLean ficou financeiramente arruinado e morreu num manicômio onde fora internado; a sua filha faleceu em 1946, intoxicada por barbitúricos; e sua mulher, Evelyn, tornou-se viciada em morfina e faleceu.

Somente o joalheiro americano Harry Winston, que adquiriu a pedra azul dos herdeiros da família McLean, escapou de um destino fatídico e trágico. Ofereceu a gema ao Smithsonian Institute.

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Fonte: http://quemcontaoque.blogspot.pt/2011/03/o-diamante-hope-e-sua-maldicao.html

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A visão do Viegas

Arnaldo Viegas cursava o terceiro ano do curso jurídico de São Paulo. Havia seis, porém, que se achava matriculado na Academia. Indolente e de pouca atilação para as ciências, distinguia-se somente entre os companheiros pela sua supina ignorância da ciência jurídica, e pelo atrevimento das suas graçolas para com os lentes, mesmo os mais sisudos e ríspidos.

Se em direito, porém, Arnaldo Viegas, era profano, sabia no entanto de cor quase todos os poemas de Byron e Musset, cujos livros tinha por sua Bíblia ou Alcorão, mas sem que fraternizasse espiritualmente com as grandezas e sublimidades daquelas almas alucinadas pelo Belo e pelo Amor.

Viegas apreciava-os unicamente por ver que esses grandes poetas, na extravagância de seus gênios, se compraziam de exaltar o Vício e deprimir a Virtude. Nisso achava ele desculpa às desordens da sua vida, desordens baixas, sem intermitências de horas de labor honesto, nem manifestações fulgurantes de talento.

Viegas era bêbedo como um marinheiro em terra; jogava toda a sorte de jogos; fazia ostentações em entrar nas mais sórdidas espeluncas; e. finalmente, era um consumado devasso, mais por perversidade e amor próprio do que por impulsão do temperamento.

A sua conversa, quando não discorria sobre os paradoxos brilhantes de Byron e Musset, versava unicamente nas boas peças que pregava aos burgueses; nos calotes que passava ao alfaiate e ao sapateiro; nas mulheres casadas que seduzia; nas donzelas que lhe ofereciam a virgindade.

Embora muito dissoluto, é escusado dizer que a maior parte dessas façanhas eram puras invenções suas. A pretensão que tinha porém de fazê-las passar por verídicas, demonstra perfeitamente o depravado fundo do seu caráter.

Todavia o Viegas figurava como torpe protagonista de algumas aventuras amorosas, e é de uma delas que vamos tratar.

* * *

No tempo de que nos ocupamos, existia na rua de São Bento, em São Paulo, um velho armarinheiro italiano, Pascoal Landini, que, às suas funções comerciais de mercador de alfinetes, grampos e agulhas, reunia as de armador de igrejas, por ocasião de festividades religiosas, e fabricante de caixões e mortalhas para defuntos.

Pascoal Landini era um velhinho magro, baixo, de barba muito alva e pontiaguda, e sempre o viam na sua pequena loja toucado com um barrete de veludo azul com borla preta, e óculos de aro de tartaruga, perfeitamente redondos e grandes. Contudo, o que mais chamava a atenção, na lojinha da rua de São Bento, não era o seu proprietário, nem os acessórios do seu vestuário, e sim uma criatura de beleza incomparável e suavíssima, Maria Annunzziata, a filha do velho Pascoal, sempre a costurar, e sentada ao fundo da loja.

Toda a estudantada desse tempo – calouros e veteranos – conhecia a loja do Pascoal por causa da bela costureira; e, pelo interesse de lhe lançar uma olhadela amorosa, aliás nunca correspondida, iam freqüentemente ao negócio de Pascoal abastecer-se de penas, lápis, papel e tinta. Pelas “repúblicas” falava-se muito a miúdo na formosura de Annunzziata, e muito estudante fechava às vezes aborrecido o Digesto ou o Corpus Juri, para abrir a Arte de metrificação de Castilho, e fabricar versos em sua honra.

Todavia até aquela data nenhum se havia lambido com um seu sorriso. Annunzziata parecia insensível aos olhares de fogo que a trêfega mocidade acadêmica lhe lançava, ao dirigir-se à Escola, e até aos sonetos que os mais brejeiros lhe atiravam em papel dobrado em laçarote, aproveitando descuidos do velho Landini.

Ora, aconteceu um dia morrer um estudante do segundo ano de direito, e tendo os rapazes resolvido fazer-lhe o enterro, por ser o colega paupérrimo, comissionaram Arnaldo Viegas para tratar da encomenda do ataúde e da mortalha.

Arnaldo dirigiu-se à casa do velho Pascoal para se desempenhar do seu fúnebre encargo, e depois de lançar uma olhadela de fogo para Maria Annunzziata, que parecia uma daquelas suavíssimas madonas dos pintores da Renascença, ensarrilhada no fundo da loja do armarinheiro, dirigiu-se ao velho nestes termos:

– Bons dias, sr. Pascoal: venho fazer-lhe a encomenda de um caixão e de uma mortalha para um colega que morreu.

Molto bene, – respondeu o italiano, na sua língua, pois não falava uma palavra de português.

E tomando uma fita métrica, perguntou a Viegas:

La medida del suo amico?

Que medida?! – exclamou Viegas.

La medida per fare il cajone.

– Ora bolas! – tornou Viegas, – nem disso me lembrei.

Dunque! – exclamou mestre Pascoal, – como fare io, senza la medida? Andate a portar-me lá, signor.

– Não é preciso sr. Pascoal; meu colega era exatamente da minha altura. Tome a medida do caixão por mim.

O italiano, que, como quase todos os seus patrícios, era profundamente supersticioso, fez um gesto de espanto, ao ser-lhe proposto tal alvitre, e exclamou:

Per Dio Santo! Ecco um cattivo pensamento. Prendere la medida di un morto sopra di voi! Questa non si fa, signor, sarebbe funestissimo per voi.

A bela Annunzziata, ao ouvir as palavras do estudante, fez igualmente um gesto de horror, e, pela primeira vez nesta cena, levantou os olhos da costura. Aproveitou-se logo disto Viegas para envolvê-la em um longo olhar sensual, ao mesmo tempo que repetia a mestre Pascoal:

– Tome a medida, mestre Pascoal. Eu não acredito em agouros.

Annunzziata, ao ver essa insistência, não pôde conter-se. Como que parecia interessar-se pelo estudante:

Oh! non lo permettete, signor! Questo porta disgrazia!

Arnaldo Viegas ficou radiante e cheio de si; quis ostentar-se aos olhos da moça homem superior, despido de superstições. Assim, exclamou, confiando o bigode negro:

– Não vos incomodeis, bela signorita. Deixe que mestre Pascoal tome a medida. O que aos demais acarreta desgraça, para mim talvez seja a chave da felicidade.

E tornou a dardejar uma chispa do seu olhar atrevido sobre a formosa italiana, que, enrubescendo, se inclinou sobre a costura, apenas pronunciando um simples oh! 

Mestre Pascoal, porém, encolhendo os ombros fleumaticamente, assim como quem queria significar que não era responsável pelo que acontecesse, disse, endireitando os seus óculos redondos de aros de tartaruga:

Sia fatta la sua voluntá!

Ao mesmo tempo que desenrolava a fita métrica, fazia com que o rapaz comprimisse a fivela da mesma na fronte e corria-a até os pés.

Em seguida levantou-se com os dedos fixos na marca, e lendo a numeração da fita exclamou:

Due metri e dieci centimetri. Per la Madona“, – acrescentou ele tirando o barretinho e saudando Viegas em ar de troça, –voi siete un signor difunto!

Apesar de muito encouraçado contra agouros, Viegas estremeceu com a frase de mestre Pascoal. Mas, ao ouvir Annunzziata abafar um gritinho, também impressionada com o gracejo fúnebre do pai, logo as suas idéias tomaram outro rumo. Compreendeu que a sedutora virgem da rua de São Bento estava se interessando muito por ele, e isto encheu-o de prazer.

Efetivamente, atraída por estranho ímã, Annunzziata, logo no primeiro momento em que os seus olhos pousaram sobre Viegas, sentiu-se simpatizada por ele.

Arnaldo pagou a conta e despediu-se. Da porta lançou um último olhar a Annunzziata e esta o mimoseou com um gracioso sorriso.

Viegas não cabia em si de contente. “Que conquista de mão cheia não ia ele fazer? Como toda a estudantada não se encheria de inveja e despeito ao vê-lo na posse inteira da rafaelesca virgem da rua de São Bento?! Aquele sorriso era a porta aberta a todas as suas ousadias, e não seria ele Viegas que deixaria de entrar por ela”.

* * *

Assim, animado por esse sorriso que lhe prometia tanta fartura de gozos e volúpias, Arnaldo Viegas começou a freqüentar a loja de Pascoal Landini, cuja confiança e amizade soube captar em pouco tempo, pois o velho italiano era homem muito simples e de extrema boa fé.

Duas semanas depois que teve lugar a cena acima descrita, já Viegas tomava parte no macarrão e no vinho de Chianti do modesto lar do armarinheiro, e daí a duas outras semanas era ele completamente senhor do coração e da vontade de Annunzziata, que havia subjugado desde o dia da encomenda do caixão.

Sem o sentir, a bela jovem Annunzziata achou-se perdidamente enamorada do devasso estudante, e logo Viegas cogitou nos meios de poluir aquela cândida criança, que com tanto abandono e simpleza lhe ofertava o seu primeiro e virginal amor.

Aproveitando-se de uma ausência de Pascoal que foi obrigado a dirigir-se ao Rio de Janeiro a fim de fazer sortimento para a sua loja, intrometeu-se na lar do honrado lojista onde Annunzziata ficara, apenas com uma criada já velha.

Annunzziata amava-o muito já, para poder resistir-lhe. Viegas atirou-se-Ihe com toda a lubricidade dos seus desejos, e profanou-a.

Pouco depois alugou um quartinho na rua que dava fundo para a casa do italiano e todas as noites metia-se no quarto da rapariga que cada vez o adorava mais.

Durante dois meses Viegas foi assíduo junto da amante, porém decorrido esse tempo começou a enfastiar-se dela, principalmente por ter percebido que ela se achava grávida. Aquele infame era incapaz de qualquer sentimento nobre. Resolveu abandoná-la.

Mudou-se de residência e nunca mais a procurou.

Não tinha ele conseguido os seus intentos? Não alcançara transformar em impura Madalena a bela e recatada virgem que toda a Academia adorava? Agora convinha-lhe demonstrar a sua superioridade, para que não parecesse qualquer burguês. Partiria a taça pela qual sorvera o mais suave dos filtros.

* * *

Annunzziata cobriu-se de mágoas com o súbito abandono do pérfido amante.

Escreveu-lhe por diversas vezes e não obteve resposta. Ralavam-na os desgostos, começou a compreender que tinha sido traída, até que afinal, amiudando mais as cartas ao celerado, este, com o maior cinismo, mandou dizer-lhe verbalmente por um moleque que o não apoquentasse mais com cartas e choradeiras, que andava muito preocupado com os seus estudos e exames para perder tempo em responder a lamúrias de mulheres histéricas; e, finalmente, que não fosse tola em insistir com ele para pedi-la em casamento, pois ela bem devia compreender que um rapaz da sua posição e futuro não era para casar com a filha de um armarinheiro, um reles burguês fazedor de caixões de defunto.

Tanto cinismo e brutalidade partiram uma por uma todas as cordas da alma da bela italiana. O seu débil corpo não pôde resistir a tão duro golpe; intensa febre levou-a ao leito de onde só saiu alguns dias depois para ser levada ao cemitério. O seu pobre coração estalara de dor, e ao partir-se levara-lhe a existência.

* * *

O velho Pascoal Landini sentiu-se ferido profundamente nas suas vivas e únicas afeições com a morte de sua dileta Maria Annunzziata, retrato vivo da esposa que perdera havia anos.

Desde o dia em que a gentil criatura cerrou os olhos à luz do mundo, nunca mais abriu o armarinho.

Tornou-se taciturno em extremo, evitava falar com as pessoas de seu conhecimento, e passava a maior parte do dia encerrado no pequeno quarto em que dormia e onde lhe morrera a filha adorada, e cujos móveis e roupas conservava na mesma desordem e desalinho em que haviam ficado naquele dia tão angustioso para o seu pobre e velho coração.

À rua apenas saía para dirigir a construção de um artístico mausoléu que mandara erigir no túmulo da filha, e no dia seguinte àquele em que se ultimara a obra, encontraram-no morto no quarto de Annunzziata.

Feita a autópsia, verificaram os médicos que o infeliz ingerira uma forte dose de arsênico.

Esses dolorosos acontecimentos que tanto emocionaram os lojistas e fabricantes da rua de São Bento, pois Landini e sua filha eram geralmente estimados, não impressionaram no entanto o cínico que havia cavado aquelas duas sepulturas precoces.

Arnaldo Viegas continuava na sua vida de dissipação, como outrora, e no seu íntimo alegrava-se até que a morte o tirasse de certos embaraços sociais para com a infeliz, cuja virgindade ele havia profanado.

Pouco depois entrava em exame e por casualidade era aprovado com a nota simples.

Rejubilou-se o pretensioso ignorantão com esse mesquinho triunfo escolar, e tendo naquele dia recebido a gorda mesada que a prodigalidade paterna lhe dispensava, resolveu festejá-la com uma lauta ceia oferecida aos amigos, no Corvo, a célebre taverna paulista da rapaziada acadêmica de outrora.

Eram onze horas da noite. Reinava a mais expansiva alegria em todos os convivas, pois já algumas dúzias de garrafas haviam sido despejadas, quando Arnaldo Viegas que se achava na cabeceira da mesa ergueu-se um tanto ébrio, e, empunhando uma taça a transbordar de vinho Madeira, exclamou:

– Meus senhores, vou levantar o brinde de honra do nosso banquete. Sobre ele todas as taças se quebrarão!

– Muito bem! muito bem! – responderam todos enchendo os copos.

– É um toast de respeito, meus senhores! Eu bebo à memória da rapariga mais formosa que meus lábios têm beijado nos espasmos do prazer! Eu bebo, senhores, ao perfeito apodrecimento da que foi outrora a mais perfumada e deliciosa das carnes! Eu bebo à memória de Maria An… An… An…

Não pôde terminar o nome angélico daquela cujas cinzas queria profanar em uma orgia.

Os seus olhos fixaram-se de repente em um dos ângulos da enfumaçada sala da taverna acadêmica. e o seu corpo principiou a tremer, caindo-lhe o copo das mãos.

Os companheiros voltaram-se imediatamente para o canto onde se dirigira o olhar aterrado de Viegas, mas nada viram.

Arnaldo, no entanto, ia ficando pálido, os seus lábios abriam-se denotando a maior estupefação, e os seus dedos crispavam-se, como se ele fosse presa de horrível pesadelo.

Efetivamente surgia para Arnaldo uma visão medonha, pavorosa. Naquele momento de final de orgia, viu sair do canto da sala um fantasma, o finado Pascoal Landini, de barrete azul, óculos redondos de aros de tartaruga e fita métrica em punho. A terrível visão aproximou-se do libertino, que quis gritar, sem poder, não encontrando som algum na garganta.

Os companheiros observavam espantados e silenciosos. Viegas viu, então, o fantasma de Pascoal desenrolar a fita, obrigá-lo a comprimir a fivela à fronte onde um suor frio deslizava, corrê-la até os pés, e depois erguer-se, endireitar os óculos para ler a numeração, e exclamar:

Due metri e diecci centimetri! – E, exatamente como outrora, no dia em que fora tratar do enterro do colega, tirar o barretinho e à guisa de cumprimento trocista, acrescentar:

Per lá Madona, voi siete un signor difunto!

Viegas não pôde suportar por mais tempo aquele martírio. Reunindo todas as forças que tinha, articulou um grande grito e rolou inanimado no soalho da taverna.

* * *

Tornando a si do delíquio, a sua primeira pergunta foi saber dos companheiros se tinham visto a alma do velho Pascoal tomar-lhe a medida para o caixão.

Ninguém vira coisa alguma.

– Foi o vinho Madeira que te subiu aos miolos, – disse um colega.

– Proferiste um conto digno de Hoffman ou do nosso Álvares de Azevedo, – disse outro.

– Ora, graças que temos um Macbeth na Academia! Acho, porém, o teu Banquo um tanto burguês, – acrescentou ainda outro.

– Senhores, – exclamou Viegas todo trêmulo ainda e de uma palidez mortal, – eu vi nesse momento o velho Lalldini chegar-se a mim e tirar-me a medida para o caixão, exatamente como no dia em que com ele tratei do enterro do Deotato. Vi, senhores, não foi efeito do vinho, nem é conto que vos quero impingir, eu vi o velho Landini!

* * *

Dessa noite por diante a razão foi desaparecendo aos poucos do atribulado cérebro de Arnaldo Viegas.

Cessou os estudos, afundou-se cegamente na bebida e dentro de algum tempo estava completamente idiota.

Com intervalos lhe surgia na mente confusa a temerosa visão, o eterno mestre Landini a. tirar-lhe a medida para o caixão; em seus ouvidos zumbia constantemente o terrível gracejo do armarinheiro:

– Due metri e dieci centimetri! Per la Madona voi siete un signor difunto!

Em estado de completo idiotismo vagou durante algumas semanas pelas ruas de São Bento, roto, esfrangalhado, sórdido, até que afinal sua família mandou recolhê-lo e meteu-o no Hospício do Rio de Janeiro.

No fim de alguns meses o seu corpo era dado à sepultura.

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Padilha, Viriato. O livro dos fantasmas. Rio de Janeiro, Spiker, 1956, p.59-70